Conforto olfativo na arquitetura e o impacto dos odores no bem-estar


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02 Nov
02Nov

Programas de culinária nunca foram tão populares no mundo. Sejam eles de receitas, reality shows ou documentários, o escritor Michael Pollan aponta que não é incomum passarmos mais tempo assistindo do que preparando nossa própria comida. Isso é um fenômeno bastante curioso, já que nos resta apenas imaginar os cheiros e gostos do outro lado da tela, como os apresentadores gostam de nos lembrar frequentemente. Ao mesmo tempo, quando assistimos algo sobre a Idade Média, rios poluídos ou desastres nucleares, ficamos aliviados de ainda não existir uma tecnologia para transmitir os cheiros. De fato, ao tratarmos de odores (e mais especificamente os maus), sabemos o quão desagradável é estar em um espaço que não cheira bem. Mais especificamente em edificações, quais são as principais fontes e de que forma isso pode afetar nossa saúde e bem-estar? 

Tratar dos odores pode ser algo complicado. Em primeiro lugar, é imprescindível mencionar que o considerado fedido e repugnante para alguém, pode não ser para outra pessoa. Isso é algo subjetivo, que varia muito entre culturas e experiências pessoais. Evidentemente, há odores que são desagradáveis para todos. Quando excessivamente fortes podem perturbar o conforto físico e psicológico e até provocar irritação nos olhos, nariz e garganta, náuseas e dores de cabeça. Por muito tempo, também pode afetar o humor, a ansiedade e o nível de estresse. Na Dinamarca, por exemplo, um estudo [1] concluiu que voluntários tiveram uma redução de produtividade em um escritório quando um tapete com 20 anos de uso foi colocado no ambiente, emitindo odores e poluentes atmosféricos.

Um adulto inala e exala cerca de 11 mil litros de ar diariamente e o odor é causado por um ou mais compostos químicos volatilizados que humanos e animais podem perceber pelo olfato. Segundo o relatório Guidelines for Ventilation Requirements in Buildings [2], os humanos percebem o ar por dois sentidos. O sentido olfativo está situado na cavidade nasal e é sensível a várias centenas de milhares de odorantes no ar. O sentido químico geral está situado em todas as membranas mucosas do nariz e dos olhos e é sensível a um número igualmente grande de irritantes no ar. É a resposta combinada desses dois sentidos que determina se o ar é percebido como fresco e agradável ou rançoso, abafado e irritante. 

Deste estudo também foram desenvolvidas duas unidades de medida para o odor: o olf e o decipol. Enquanto o primeiro é uma taxa de emissão de poluição, o decipol se trata do nível percebido pelo usuário. Mas mais importante que identificar a intensidade, é encontrar a fonte do odor. Para isso, há olfatômetros portáteis, utilizados por profissionais especializados, que permitem quantificar e identificar rapidamente odores incômodos.

No caso das edificações, os odores podem vir de fontes Externas ou Internas. As fontes externas são, obviamente, mais complicadas de controlar. Elas podem atingir o edifício através das aberturas e dos sistemas de renovação de ar. Tratam-se de atividades industriais, rodovias, um vizinho desagradável, ruas movimentadas, infraestruturas de saneamento e até poluição química do solo. As fontes internas ao edifício referem-se aos próprios materiais de construção, os revestimentos e pinturas, os mobiliários, o sistema de esgoto,  materiais de construção, materiais de conservação e manutenção, mobiliário, reações químicas de mofo, produtos de decomposição, ou os próprios usuários e seus objetos.

É importante diferenciar odores com a poluição do ar interno. Não necessariamente um odor desagradável será um poluidor. E há elementos inodoros que podem causar efeitos nocivos aos ocupantes como o GLP, por exemplo, cujo odor é adicionado para revelar a sua presença caso haja vazamento. Os Compostos Orgânicos Voláteis (COV ou VOCs em inglês) merecem uma menção específica. Dentre eles, o formaldeído (com odor intenso) é o mais comum, podendo emanar de materiais de construção e acabamentos, fabricados ou naturais, dos quais ligantes, colas, revestimentos, tintas e até madeira, para citar alguns.

Mas de que forma é possível melhorar a qualidade do ar interno? Ainda que produtos de limpeza possam tapear os maus cheiros, a melhor maneira de melhorar a qualidade do ar interno é trabalhar para cessar a poluição da fonte. Há pontos que merecem mais atenção. Os ralos e encanamentos de esgoto não-sifonados são potenciais fontes de mau-cheiro. Se informar se os materiais de construção poderão emanar algum aroma desagradável e substâncias nocivas ao organismo no seu espaço é vital para manter uma boa qualidade do ar. Já há, inclusive, alguns produtos no mercado que prometem purificar o ar interno eliminando certos compostos orgânicos voláteis (VOCs), como o formaldeído.

Além disso, como arquitetos, proporcionar boa insolação e, principalmente, ventilação adequada e natural nos espaços é uma forma altamente eficiente para purificar o ar nos ambientes. Promover uma circulação de ar contribui para melhorar o conforto térmico e o olfativo em um ambiente. Se não for possível, o uso de ventilação mecânica com ventiladores e condicionadores de ar pode ser eficiente também. No caso do ar condicionado, a filtragem do ar de entrada e saída ajuda a remover partículas nocivas. No entanto, os filtros de ar precisam ser mantidos para evitar que o próprio sistema de ventilação se torne uma fonte de poluição, ao invés de uma solução.

Outro elemento que pode trazer uma melhoria na qualidade do ar interno, além de muitos outros benefícios, é o uso de plantas. Elas produzem oxigênio, eliminam toxinas do ar e agregam valor estético a um espaço. Algumas espécies já se provaram mais eficientes. A NASA [3] estudou o crisântemo (Chrysantheium morifolium) e concluiu que elas absorvem gases poluentes, como monóxido de carbono e formaldeído, além de eliminarem elementos nocivos como o benzeno. Lírio da paz e palmeira rápis também absorvem alguns poluentes e é possível observar uma lista com os tipos estudados. Outras espécies, como jasmin, gerânios, lavanda e manjericão liberam fragrâncias agradáveis capazes de neutralizar odores desagradáveis.

Ainda que não existam evidências científicas de que odores desagradáveis, em si, estejam ligados diretamente a efeitos adversos à saúde, pesquisas científicas comprovam amplamente todos os seus malefícios para o bem-estar dos ocupantes.  Buscar ambientes, ao menos, neutros pode estar mais ligado à arquitetura do que imaginamos. E deixar que ele libere aqueles aromas que não pudemos sentir nos programas de TV. 

FONTE: Office Connection

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