Abstract: The Art of Design | Tinker Hatfield: Footwear Design


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O passado de Tinker Hatfield na arquitetura e nos esportes inspirou seus designs para a Nike, incluindo a da famosa linha Air Jordan.

“Existe arte envolvida no design. Mas não acho que seja arte. Na minha percepção, arte é a maior autoexpressão de um indivíduo criativo. Para mim, como designer, o maior objetivo não é a autoexpressão. Meu objetivo é solucionar um problema para outra pessoa, e espero que fique ótimo para ela, e bonito.”

Tinker era atleta, praticava salto com vara e, no colégio, ganhou alguns campeonatos estaduais e uma bolsa de estudos para a Universidade do Oregon. Na universidade, Tinker conheceu Bill Bowerman, treinador e co-fundador da Nike que projetava alguns tênis e sapatilhas de corrida. Segundo Tinker, “ele fazia e tentava de tudo para tornar os atletas melhores”. No segundo ano na universidade, Tinker caiu de uma altura de cinco metros e arrebentou seu tornozelo. Após cinco cirurgias e dois anos de recuperação, o atleta, deprimido, ouviu os médicos comentando que sua carreira havia acabado. Para ajudá-lo a não mancar, Bill Bowerman desenvolveu uma sapatilha com um suporte de calcanhar, que evitou que Tinker perdesse a bolsa na universidade. Tinker Hatfield tirou do ocorrido uma grande lição: aprendeu a solucionar os problemas dos outros, entendendo as consequências de uma lesão.

Tinker também cursou arquitetura e, quase que por acaso, descobriu que sabia desenhar. Enquanto cursava a faculdade, também fazia trabalhos para Bill Bowerman. Foi nessa época que, sem saber, Tinker estava aprendendo a criar calçados e solucionar os problemas dos atletas. Para ingressar definitivamente como designer dos tênis da Nike, Tinker precisou participar de uma competição de 24 horas. Ele conta que trabalhou por 24 horas seguidas, e que a maioria dos outros designers aproveitaram projetos que já estavam prontos. Mas Tinker foi além, apresentou um projeto extenso de um sapato perfeito para pilotar motos e depois dar uma corrida, tudo com o mesmo calçado.

Dois dias após a competição, comunicaram Tinker que ele era designer de calçados da Nike. Inspirado por um polêmico prédio de Paris, o Centro Georges Pompidou, projetado por Renzo Piano, Hatfield teve a ideia de expor as cápsulas de ar para amortecimento no Air Max. Muitas pessoas disseram que ele havia ido longe demais e pediram sua demissão, alegando que jamais comprariam um tênis com as cápsulas expostas, pois tinha aparência de frágil e podia furar. Porém, o Air Max decolou, foi um sucesso incrível em vendas e o modelo está no mercado até os dias de hoje.

Na mesma época do tênis Air Max, Hatfield notou que ninguém estava usando o calçado certo para as modalidades de esporte. As pessoas jogavam basquete com tênis de corrida, ou corriam com tênis de basquete, e com isso se machucavam. Com base nisso, pensou em desenvolver um tênis que funcionasse bem para todas as modalidades, e assim surgiu o primeiro Cross Trainer. Com estabilidade lateral e uma tira central para prender o pé, o usuário podia participar de todas as modalidades sem trocar o tênis.

Michael Jordan, o grande astro da Nike na época, não havia gostado dos dois primeiros modelos do tênis Air Jordan, e estava desistindo da parceria. Foi quando a Nike escalou Tinker Hatfield para criar o próximo Air Jordan. Hatfield pegou o projeto e o cronograma já com seis meses de atraso. Segundo ele, foi uma correria, sem dormir por semanas e meses, além de diversas viagens para a Ásia com os designers, tudo para conseguir criar um protótipo. Na reunião de apresentação, Jordan estava de mau humor e todos do time da Nike apreensivos, mas, após Thinker explicar todo o projeto e apresentar o tênis, conseguiu convencer e agradar Jordan.

“Um design básico é funcional. Mas um ótimo passa uma mensagem.” 

Thinker ficou no projeto até desenvolver o Air Jordan 15, quando já sentia que estava cansado e esgotado, além de muito distante da família. Ele também sentiu muito a morte de Bill Bowerman. Na época, Tinker pensou que era o fim da sua carreira como designer de tênis. Aproveitou essa fase para orientar, treinar e inspirar jovens atletas. Segundo ele, isso não se baseia somente em ajudar os atletas a saltar mais alto. A verdadeira intenção é ajudá-los a superar o medo e desenvolver autoconfiança. Em 2005, após voltar da aposentadoria, Thinker Hatfield desenhou o Air Jordan 20, a pedidos do próprio Michael Jordan. Tinker chamou Jordan para conversar sobre esses 20 anos que se passaram. Durante a conversa, ele anotou tudo e depois começou a perceber que podia criar um símbolo para representar cada uma dessas histórias. Os símbolos se tornaram a alma do tênis. Alguns emocionais, outros só engraçados. Foi uma abordagem vanguardista para um tênis de basquete.

O episódio também acompanha o lançamento do cadarço automático E.A.R.L. – Electro Adaptive Reactive Lacing (Cadarços Reativos Eletroativos), pensado para ajudar principalmente os jogadores de basquete que sofrem muito por usar tênis com cadarços muito apertados, lesionando seus pés.

“Os designers precisam prever as necessidades do futuro.”

O ideal seria um produto que apertasse enquanto os jogadores se movimentavam no jogo e afrouxassem em pausas, lances livres, ou enquanto o jogador estivesse no banco de reservas. A ideia do cadarço automático E.A.R.L. veio de um trabalho para o cinema. Em 1987, Tinker foi convidado para trabalhar no filme De Volta para o Futuro 2. O cadarço do tênis desenvolvido para o filme era automático, mas obviamente era de mentira, havia uma pessoa que puxava os cadarços para dar a impressão de realismo. Em 2007, Tinker e a engenheira Tiffany Beers desenvolveram o primeiro modelo do tênis com o cadarço automático, mas a tecnologia da época não ajudava, pois o motor utilizado era muito grande, além de precisar ligá-lo na tomada ou em uma bateria de carro. Ficou claro que eles precisavam esperar a tecnologia avançar, pois os motores tinham que ser menores, mais rápidos e fortes. Depois de alguns anos, finalmente o produto E.A.R.L. foi lançado em Nova York.

“Se você só ficar no escritório tentando ter novas ideias, não terá uma boa base para sua ideia. Saia e viva a vida. Isso cria um acervo mental, que você poderá explorar em designs inovadores.”

Fonte: Netflix