Escritório Pitá Arquitetura - nova sede própria no Edifício Itália


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Além da diversidade de projetos do Pitá Arquitetura, a expertise da equipe de arquitetos é criar espaços corporativos para clientes, sobretudo do setor da economia criativa. Quando chegou o momento de projetar a nova própria sede, implantada no 16º andar do Edifício Itália (região central de São Paulo), de par com o emprego de elementos consolidados no seu portfólio - como a mescla de tipologias diversas de espaços de trabalho e a integração visual das equipes - radicalizaram a prática da customização de elementos que contam a sua história e valores institucionais. Mas, atenção: é uma narrativa que se mostra aos poucos, conforme se caminha pelo ambiente, através de um projeto pautado pela revelação, sequencial, de pequenas e grandes surpresas visuais.

Os 450 metros quadrados de área da nova sede do escritório Pitá Arquitetura correspondem à metragem máxima almejada pelos arquitetos quando decidiram, no início de 2019, mudarem de endereço. Alocados na época em sobrado nas imediações da Avenida Brigadeiro Faria Lima, na zona oeste de São Paulo, eram três as diretrizes espaciais que estabeleceram para a escolha do novo imóvel: que fosse plano, de modo a facilitar a interação espontânea entre as equipes; que excedesse os 180 metros quadrados de área em que trabalhavam, estipulando-se o intervalo de 350 a 450 metros quadrados para a busca; e que fosse bem localizado, tanto no que diz respeito à acessibilidade por modais diversos quanto à vitalidade do entorno, inclusive após o horário comercial. Tendo examinado uma lista de 110 potenciais imóveis e deles visitado uma dezena, a escolha foi pela laje do 16º pavimento do Edifício Itália, localizado no centro da capital. Descartada a opção por andar mais elevado no mesmo edifício, aos arquitetos foi tocante visibilidade híbrida do entorno naquela altura: vê-se a copa das árvores da Praça da República mas também com nitidez a movimentação das pessoas pela cidade, numa relação dupla de distanciamento e pertencimento à dinâmica cotidiana do bairro. 

O primeiro passo do projeto para aquele local, relatam os arquitetos Antonio Mantovani e Nico Salto Del Giorgio, foi o de reconhecimento. Uma das particularidades daquela sala do 16º pavimento era ter sido ocupada pela mesma empresa desde a inauguração do Itália, de modo que, ainda que existentes, as alterações feitas pelo inquilino ao longo do tempo fossem menos impactantes do que as recorrentes em outros andares. Removendo forros, pisos, revestimentos e tipos diversos de adições, os arquitetos do Pitá vislumbraram algumas das qualidades arquitetônicas do imóvel, notadamente o ritmo de janelas e brises das fachadas, com a consequente boa iluminação e ventilação naturais do conjunto, e a particular visão que se tem do exterior intermediada pela modulação dos caixilhos. “Um desastre bonito”, sintetiza Salto Del Giorgio a sensação de envelhecimento do imóvel com que se depararam por causa das janelas quebradas e dos brises faltantes, sem o prejuízo da beleza do local.

Com as subtrações, revelaram-se também os quatro pilares redondos de concreto do centro da planta. Em torno deles os arquitetos conceituaram a implantação da ampla área de trabalho cooperativo do escritório, convidativa à arranjos diversos, encontros, reuniões informais e apresentações, que foi duplamente ladeada pelas estações de trabalho, posicionadas junto às janelas. Nas extremidades interna e externa da peculiar planta triangular da metade da laje, então, com quina arredondada, implantaram-se respectivamente os ambientes fechados – como as salas de ligação por voz, central de impressão e os sanitários individuais – e o bar do Pitá. Já na entrada, o primeiro contato que se tem com o escritório é a sala, escura, das amostras manipuladas cotidianamente pelos arquitetos em vez da tradicional recepção, passando-se para as salas de reuniões.

A surpresa da fase inicial da reforma foi a descoberta de uma espessa camada de palha sob a laje do 17º pavimento, aproximadamente 30 centímetros de espessura, cujos esforços para a remoção terminaram com a constatação, na prática, de que era impossível revelar o concreto. Assim, a aparência do teto do escritório do Pitá é uma inusual superfície rugosa, aspecto resultante do jateamento da laje com concreto branco a fim de se ocultar a palha remanescente,  utilizada como espécie de forma de concretagem na época da construção do edifício. Em contraposição, o piso do escritório foi executado com material monolítico, com mínima junta de dilatação em toda a área de utilização e em tonalidade clara. Trata-se de uma mistura de epóxi com fragmentos de pedras naturais, com a vantajosa – pouca – espessura para uma área comercial.

Em meio à relativa neutralidade do piso (ao olhar mais aproximado a superfície revela texturas e cores que destoam do branco do epóxi, como fragmentos de latão e de mármore tingido de azul) e à tonalidade clara do forro, a ambiência do escritório se ampara em duas diretrizes: o resgate de elementos da arquitetura paulistana de interiores da época da construção do edifício, notadamente a sinuosidade de elementos e a prevalência de cores com baixa luminosidade em tapeçarias e afins, e, no extremo oposto, certa extravagância nas salas reservadas. “A ideia era a da criação de um espaço não óbvio, onde fôssemos criando surpresas sequencialmente”, explica Salto Del Giorgio, o que vale sobretudo para os revestimentos de paredes e tapeçarias. O bar é, neste sentido, o espaço focal do projeto, com sua atmosfera tropical resultante não apenas da presença da vegetação e da visão que se tem das copas das árvores da Praça da República, como também da tonalidade verde predominante. Um banco acompanha a curvatura da fachada.

Todas as janelas foram trocadas por exemplar mais eficiente em termos acústicos, com o acompanhamento e a aprovação condominial. Mantiveram-se os vãos mas o modelo foi discretamente modificado, do sistema guilhotina de abertura para aquele híbrido: abre e oscila verticalmente, deixando passar o ar pela fresta superior. Também houve a reformulação do acabamento da janela, com a utilização do bronze, anodizado, igualmente na face interna (antes, ela era branca), e os brises foram restaurados e/ou complementados. A associação da iluminação natural com a artificial, pautada pela eficiência (500 lux nos postos de trabalho) e o conforto visual (uniformidade da iluminação) é, neste aspecto, um dos destaques do projeto. Não há cortinas recobrindo as janelas e a luz do dia está sempre presente nos interiores, incidente pelas fachadas leste e oeste, de modo que o sistema de iluminação artificial seja munido de sensores não apenas de presença mas também de intensidade da luz em cada zona do escritório, a fim de atuar em conjunto com a iluminação natural. As luminárias, então, dimerizadas automaticamente, acendem apenas quando necessário e na intensidade necessária para que se atinja o nível recomendado de luminosidade nas estações de trabalho. Considerando-se, inclusive, a ausência de reflexão da luz no forro e, ao contrário, a reflexão da luz nos brises.

Em todo o projeto, de fato, mescla-se a simplicidade de elementos (como as luminárias dos sanitários,  projetadas pelos arquitetos, feitas com placa metálica e soquete), com a rusticidade dos detalhes (como o teto de palha, do bar) e com a elevada tecnologia. A faixa central do vidro da divisória da sala maior de reunião, por exemplo, é polarizável (variando da total transparência à total opacidade); não há teclas para o controle da iluminação (o sistema é automático) exceto para o acionamento de cenários pré-programados em salas de reunião; os telões são facilmente acessíveis através dos dispositivos móveis dos funcionários, de modo a nele serem projetadas imagens para a discussão coletiva dos projetos; a sonorização ambiente é ajustável por zonas e também individualmente; e as salas de reunião são dotadas de câmaras para videoconferência, entre outros artifícios “na medida, sem exageros”, saliente Mantovani.

A obra do Pitá foi surpreendida pela pandemia do coronavírus, mas os arquitetos são unânimes em afirmar que não houve a necessidade de pensar em alterações arquitetônicas a fim de ajustar a ocupação do escritório às novas demandas sanitárias, ainda que, por ora, a lotação esteja bem abaixo do planejado – dos 44 postos, apenas sete podem ser ocupados diariamente pelos funcionários atualmente. Contam positivamente a boa ventilação do espaço – “nosso objetivo é usar o sistema de ar condicionado em casos excepcionais apenas”, detalha Mantovani – e a fácil manutenção das superfícies. As mesas de trabalho, por exemplo, prescindem de divisórias com tecidos, os sanitários são individuais e o piso é monolítico.

Questionado sobre a experiência de pouco mais de duas semanas trabalhando no Edifício Itália – o projeto do Pitá é capaz de acolher até 80 funcionários se considerada a mescla de trabalho presencial e remoto -, Mantovani é enfático em salientar a qualidade da arquitetura de Franz Heep, autor do projeto do edifício, inaugurado em 1965, sobretudo no que diz respeito ao conforto ambiental. “É fresco o dia todo por causa da ação dos brises e sol está presente de manhã e à tarde. É um projeto saudável”, conclui o arquiteto. A equipe do Pitá se sente tanto acolhida pelo Itália que encabeçou o projeto de um livro sobre a história do edifício, lançado em junho. 

Pitá Arquitetura
Local São Paulo (SP)
Início do projeto 2019
Conclusão da obra 2020
Área de intervenção 450 m2
Arquitetura Pitá Arquitetura
Complementares JMBF Engenharia
Construção SAENG Engenharia
Fotos Renato Navarro

FONTE: Revista Projeto

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