Arquiteto Fernando Brandão: UM EXPOENTE BRASILEIRO NA CHINA


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21 Jan
21Jan

Notavelmente reconhecido no Brasil, Fernando Brandão consolidou, na China, sua produção. Com base em Shanghai, o arquiteto firmou linguagem própria num portfólio digno de nota.

Fernando Brandão nasceu na cidade de São Paulo em 1960, formando em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de Santos em 1983. Atua nas áreas comercial, corporativa, promocional e, desde então, recebendo os prêmios IAB, AsBEA, Abe design, IF, IDEA, Red Dot, IAI Asia Pacific e inúmeros outros em sua carreira. Foi diretor e vice-presidente da AsBEA (Associação Brasileira de Escritórios de Arquitetura)Em 2009 foi vencedor do concurso para o Pavilhão Brasileiro na Expo Universal 2010 Shanghai, China. Desde 2010 leciona na De Tao Masters Academy em Shanghai em parceria coma Peking University e Fudan Shanghai University. 

Desde 2012 possui escritório em Shanghai na SIVA, Shanghai Institute of Visual Arts. Atualmente diretor do escritório Fernando Brandão Architecture and Design atuando nos mercados Chinês e Brasileiro. No ano de 2019, a revista AD Architecture Digest China o elegeu entre os 100 arquitetos mais influentes da China. Em2020 incluído no livro The Most Beaultiful Rooms of the World publicada pela AD Architecture Digest e Editora RIzzoli NY. Em entrevista exclusiva, Brandao fala sobre a percepção dos chineses em relação à arquitetura brasileira, o ensino de arquitetura e outros assuntos.

Você participou da diretoria da AsBEA (Associação Brasileira dos Escritórios de Arquitetura). Quais são as maiores dificuldades para o sucesso do s escritórios de arquitetura no Brasil? 

Nossas associações e nossos institutos carecem de representatividade e consequentemente, legitimidade! Por si só já representam um grande atraso e prejuízo na pauta da arquitetura brasileira. Dificuldades são inúmeras, da falta de uma política pública para o desenvolvimento de serviços técnicos, da falta de uma política universal para a exportação destes serviços, incluído nestas questões a completa ausência de uma política para acesso a softwares e hardwares importados de ponta. Passando pela falta de um compromisso público pratico da parte dos arquitetos em relação a suas comunidades e cidades. De uma maneira geral (salvo heroicas exceções) somos uma classe “ignorante”, sem descortino intelectual e alienada de nossa realidade, o que nos faz ausente do cenário mundial. Vou bienalmente a Veneza desde 1998 e fui a sete exposições universais e/ou mundiais e nunca vi arquitetos brasileiros participarem das pautas em questão... ou quando...sempre com discursos pseudoengajados, herméticos, incompreensíveis e inúteis. Vi sempre o mundo discutindo “problemas” ou questões do Brasil com nossa impressionante ausência.

Você foi o vencedor do concurso para o Pavilhão Brasileiro na Expo Universal em Shanghai, em 2009.Fale sobre este projeto e comente deque maneira o prêmio atuou como divisor de águas em sua carreira?

Sem dúvida, o fato da possibilidade deste privilégio me fez entender outras realidades e contra pontuar com a nossa. O pavilhão brasileiro criou empatia como público chinês e ficou entre os oito mais populares da Expo, na época, foi criada uma Instituição (Detao Masters Academy ) para convidar profissionais de várias áreas do mundo todo a lecionarem pela China, na área de arquitetura aproveitaram a visibilidade da Expo e nos convidaram, e como contrapartida abrir um escritório comercial que veio a acontecer em 2012.

Em 2009, quando venceu o concurso, o Brasil vivia um tempo de crescimento acelerado. Em que medida o mercado brasileiro se assemelhava ao chinês, naquele momento? Como avalia as transformações nos últimos 11 ano sem cada um desses mercados? 

Na época havia um pensamento de que os países emergentes (inclusos Brasil e China) estariam num voo ascendente, (foi criado o BRICS) e acreditava-se na China que havia uma enorme empatia entre os dois países. Na minha visão simplista dos fatos o Brasil se perde em assuntos desnecessários, não há pauta coletiva, não há um projeto nem um sentimento de nação, ao contrário da China.

Sua produção tem sido reconhecida e amplamente divulgada na China. Fale sobre este mercado e de que maneira adaptou sua produção às características do público local. 

São 10 anos trabalhando e circulando pela China (fui a China 42 vezes) e conheço mais de 120 cidades, dei inúmeros workshops e palestras além de realizar projetos, muitas consultorias e assessorias. Meu discurso de vendas foi perceber as lacunas no vocabulário e repertorio chinês ,foi um trabalho peregrino vendendo cinco, conceitos importantes acessibilidade e o conceito de design universal, conectividade e o discurso pelo uso de uma tecnologia “friendly”, sustentabilidade e o entendimento dos recursos finitos, identidade pelo entendimento do passado para vislumbrar o futuro e humanidade fazendo entender o todo. Culminou este trabalho com o reconhecimento por parte dos Chineses, em 2019 fui incluído no Anuário Chinês de Arquitetos e designers e também reconhecido pela revista AD China entre os 100 arquitetos mais influentes da China.

De que maneira incorpora a tecnologia e os meios digitais aos seus projetos? Novamente comparando o Brasil à China, quais são os aspectos tecnológicos em que estamos mais atrasados? Em que pontos estamos mais avançados(?) ou equiparados ao cenário chinês?

Estamos adiantados no sentido que nossa formação é mais completa e generalista que a Chinesa, nosso raciocínio arquitetural é holístico, nesse sentido acredito que temos essa vantagem para enfrentar o futuro. Hoje a sociedade chinesa está rica e poderosa, os escritórios de arquitetura e design tem acesso ao melhor do que o mundo oferece.

Como os chineses veem a arquitetura brasileira?

Não veem. Não existe, talvez exceção entre os mais intelectualizados e interessados .Existe uma compreensão sobre o que significou Brasília e nossa arquitetura moderna, mas raramente Niemeyer ou Paulo Mendes são mencionados.

Quais são, na sua opinião, os maiores mitos que os brasileiros nutrem em relação à China, com ênfase na arquitetura e no design? 

Acreditamos que não existe uma arquitetura contemporânea Chinesa expressiva, que a China é fruto da coleção de ícones importados (talvez uma percepção correta), mas seria preciso entender que eles são a consequência de cinco mil anos de civilização e cultura, que a China irá e tem o poder de reencontrar sua identidade.

Como são tratadas as questões de sustentabilidade e acessibilidade, e certificações na China? 

Esses aspectos não são valorizados nem entendido de uma maneira consciente e pratica, existe uma compreensão de necessidade burocrática apenas. Nestes últimos anos o governo chinês vem tomando medidas praticas no sentido de criar uma política sustentável e ecológica... Apesar do país estar envelhecendo e existir uma cultura muito enraizada de convivência com a terceira idade não existe essa premente preocupação! Acredito que o Brasil está muito à frente nestas questões já instituído leis e normas a respeito e também um razoável senso coletivo a respeito dos problemas.

Você também atua como docente em instituições de prestígio internacional. Quais são as maiores falhas no programa pedagógico para a formação de arquitetos completos? Como enxerga as novas gerações de profissionais?

Percebo que o raciocínio universalista cada vez mais se restringe, o debate sobre arquitetura se estreita e perde intelectualidade. Com exceções percebo um afastamento e talvez até o esquecimento do repertorio e vocabulário conquistados pela arquitetura brasileira. Vamos nos restringindo a “caixas” e beges, não correndo riscos, não criando, não recriando e não exercitando nossa pequena herança cultural. Tento não ser pessimista, mas sinto que as novas gerações perdem oportunidades de aprender com as vidas vividas dos mais experientes achando que o mundo e restrito a respostas de Google.

Para finalizar, se pudesse deixar uma mensagem para um arquiteto recém formado, qual seria?

E necessário perceber que neste mundo não existem mais fronteiras; Serviços serão vendidos, oferecidos e compartilhados online e que o produto a ser oferecido deverá ser impregnado de brasilidade com um discurso regional e local para ser entendido como Universal. É necessário percebermos que teremos de ser profundamente brasileiros para podermos trocar com o mundo! E a linguagem de comunicação é o inglês.